EDUARDO CUNHA (PMDB) APÓS ELEITO PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS DÍS PARA O QUE VEIO E ENCARA DILMA NA SUA PRIMEIRA INTREVISTA.

Cunha começa a colocar as manguinhas de fora.

Manoel Braga/Andréia Sadi/Natuza/ Folha DF

Um dia após ser eleito presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) bateu duro na articulação política do governo, chamando-a de "atrapalhada", e criticou o patrocínio do Planalto a novos partidos, como o novo PL que o ministro Gilberto Kassab (Cidades) pretende criar.

"Só o governo, através do seu articulador Pepe Vargas, acreditava em Papai Noel", diz.

O deputado federal, de 56 anos, disse que o PMDB contestará as novas legendas judicialmente.

"É absolutamente incoerente o governo defender a reforma política e estimular a criação de partidos fictícios."

O governo errou; onde?

O governo errou em ter candidato. Quis fazer interferência. O que ficou foi muito claro: um candidato de governo, bancado pelo governo a qualquer custo nas últimas semanas, um de oposição, bancado pela oposição a qualquer princípio. E eu fiquei sendo o candidato da Casa.

 Eduardo impôs uma grande derrota política à presidente Dilma.
Porque os articuladores políticos do governo, muito atrapalhados, simplesmente resolveram fazer uma política absurda dentro da Casa. Eles quiseram assumir a derrota. Vieram para cá, na base da pressão e de tentar constranger deputados, partidos e ministros indicados. Vieram para uma luta perdida. Qualquer um que conhece essa Casa sabia que eles iam fracassar. Eles não tinham a mínima noção. Até porque são pessoas, do ponto de vista de articulação política, sem tanta experiência para isso.

 O presidente da Câmara fala sobre Miguel Rossetto, Aloizio Mercadante e Pepe Vargas.
Eu não sei quem foi o responsável, não posso acusar ninguém. Eu recebo relatos de Pepe Vargas. Eu acho que Pepe verbalizou ameaças para ministros e parlamentares, se vai ter retaliação segunda-feira, se vai demitir o cargo do parlamentar se não votar no meu candidato.

 

Em Quais casos houve interferência?
Não vou citar vários partidos. Todos da base que têm ministro no governo. Eles assumiram uma condição de vida ou morte que não tinha necessidade. Na hora que Pepe resolveu partir para esse tipo de confronto, ele se inviabilizou não só com o presidente da Casa, mas tornou a relação dele muito difícil com os partidos da base que não o atenderam. E os que o atenderam o fizeram constrangidos porque isso não é forma de fazer política.

 

O governo achava que Arlindo Chinaglia poderia vencer.
Só o governo, através do seu articulador Pepe Vargas, acreditava em Papai Noel. Como é que alguém que tem um cargo de relações institucionais busca quebrar a institucionalidade agindo dessa forma?

 

Gastou muito dinheiro para se eleger?
Depois eu passo, nem apurei.

 

Comentários de pares do senhor dizem que empresas, como a JBS, ajudaram.
Puxa, que bom. Vou até procurá-los para saber se é verdade.

 

Representantes da JBS não pediram votos para o senhor?
Isso é outra coisa. É uma opção política que ele possa ter feito. Outra coisa é financiamento.

 

Em momento algum foi procurado por representantes da JBS?
Veja bem, há um sentimento da grande parte do país, principalmente São Paulo, em que o equilíbrio e independência do Poder Legislativo significam melhoria do ambiente do processo econômico do país. Tenho certeza que se você fizer uma enquete com os 100 maiores empresários do país certamente talvez 98 preferissem a minha eleição. Não preciso pedir, eu via na rua. Não quer dizer necessariamente que tenha tido poder econômico na minha eleição.

 

Anteriormente o senhor disse que: vai encaminhar um projeto de pacto federativo?
Não disse que vamos mudar o pacto federativo. Tem propostas de reforma tributária. O pacto federativo é uma tese. Temos que fazer o debate.

 

O governo registrou deficit de R$ 17 bilhões em 2014. Vai dar para os outros (Estados e municípios) tirando de quem não tem (União)?
Não vão colocar palavras na minha boca. Ninguém aqui é irresponsável. Eu sempre defendi o equilíbrio das contas públicas. O que não pode é governo dar incentivo fiscal para uma indústria setorial tirando de Estados e municípios de todo Brasil.

E a reforma política, sai ou não sai?
Nós temos de discutir. E tem uma medida urgente que a gente tem de fazer. Temos que conter a criação de partidos. Não podemos mais continuar com essa coisa. Já falei com o Michel [Temer, vice-presidente da República e presidente do PMDB] e ele vai contestar judicialmente a criação desses novos partidos que têm o objetivo claro de fraudar a legislação com vistas à futura fusão.

 

Sua referência e sobre o Partido Liberal, que o ex-prefeito Gilberto Kassab articula?
Não dá para permitir cooptação de parlamentares de outros partidos. Isso seria um revés no governo, que vai se beneficiar da criação de outro partido para diminuir sua dependência do PMDB, de criar uma base alternativa...
Será contestado judicialmente e aqui, na Câmara, vamos tentar produzir algum tipo de legislação para, no mínimo, impedir. Tem também que acabar com esse mercantilismo de assinaturas. Esses apoiamentos para criar um partido não são filiações partidárias. Não pode ser assinatura. Não pode ficar comprando assinatura na rua para fazer partido. Tem que ser filiação mesmo. É absolutamente incoerente o governo defender a reforma política e estimular a criação de partidos fictícios. Porque o primeiro ponto da reforma política deveria ser fortalecer partidos, não o contrário.

 

Não deu para o PMDB não fazer isso á dois anos atrás? Quem esta patrocinando isso; O governo...
Fácil exemplificar, porque agora não é mais partido político. Vou criar um partido num dia para fazer fusão no outro? Isso é fraude! E o governo está patrocinando isso vai ter o PMDB como oposição a isso.

 

O procurador-geral da República divulgará lista com políticos envolvidos na operação Lava Jato; teme estar na lista?
Eu defendi a CPMI para investigar todo mundo, até a mim. As situações que surgiram foram categoricamente desmentidas. Se por ventura existir qualquer coisa, vamos ver o que é. Eu não estou imune à investigação. É muito simples: que se apareça e que se esclareça. Nada disso me preocupa porque nada disso me atinge. Estou absolutamente tranquilo. Não conheço nenhuma dessas pessoas que estão envolvidas nesse processo.

 

Está preparado para as responsabilidades que o cargo exige para qual o Senhor Foi eleito, Ex. assumir a Presidência da República?
Será simplesmente para cumprir o rito. Não vai ser para assumir o poder da presidente da República.

 

Com duas presidências nas mãos, será simplesmente cumprir um rito assumindo, mesmo como interino, a Presidência da República.

Se oportunamente assumir a Presidência da República, o farei por dever de ofício e não por vaidade pessoal, isso não fás parte do meu caráter.

 Dizem que o Sr. é inimigo íntimo da Dilma...
Por que íntimo? (risos)

 O senhor é evangélico e já se posicionou contra temas polêmicos. Defensores dos direitos humanos, que defendem casamento gay e aborto, lamentam a sua vitória. Estes temas avançarão na sua gestão?
Primeiro, se quiser pautar um projeto, tem a ordem das pautas. Os projetos de lei têm que ter urgência para ser votada, assinada pela maioria dos líderes e 257 deputados a favor da urgência em plenário. Só aí você pode discutir a pauta e não existe nada na pauta nessa situação. Uma coisa é princípio. Princípio é óbvio que sou contra, tenho minha posição, mas aqui eu tenho que cumprir a pauta.

 

Conselhos populares fás parte do seu cardápio? Não se trata de cardápio, não se degusta poderes, isso é indigesto; o tema que já está na Câmara.
Eu defendi como líder do PMDB a derrubada dos conselhos populares. Eu defendi que Henrique Eduardo Alves (ex-presidente da Câmara) pautasse o decreto do DEM para revogar o decreto da presidente. Sou absolutamente contrário.

 Na campanha 2014, Dilma disse que prioridade é apoiar projeto que criminaliza a homofobia.
O projeto que foi derrubado (PL 122/2006 do Senado), do ponto de vista daqueles que estavam preocupados, não era o problema da criminalização. A homofobia já é criminalizada. Não havia contestação, era preservar o direito de culto. Aquele projeto de lei impedia os cultos.

Mas a deputada Maria do Rosário apresentou um projeto alternativo em 2014.
Não falo sobre o que não conheço, portanto não posso emitir opinião e nem parecer. 

 
 
 

ENTREVISTA COM PEDRO SIMON: O NOVO CONGRESSO E UMA PIADA

 

Às vésperas de se despedir do Senado, no qual esteve por 32 anos, o senador gaúcho diz que o Parlamento nunca esteve tão mal, que vai aproveitar? "Descarregaram uma metralhadora na Marina. Ela sucumbiu" Último remanescente dos chamados "autênticos" do velho MDB, grupo que fazia a oposição mais radical ao governo militar, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) encerra uma trajetória política iniciada como vereador em 1960 e marcada pelo espírito combativo, pela defesa da ética e pela oratória demolidora. Com 32 anos de Senado, é um feroz crítico do Parlamento, das siglas partidárias e do sistema eleitoral. Nas palavras dele, o novo Congresso é "uma piada", a forma de eleição dos deputados brasileiros é a pior do mundo e os partidos não passam de uma "esculhambação". "O Congresso nunca esteve tão mal", avalia em entrevista à Revista Congresso em Foco. Fiel ao velho MDB, enterrado, segundo ele, com Tancredo Neves, o senador experimentou seu último protagonismo de maneira discreta: partiu dele a sugestão a Marina Silva de se filiar ao PSB e firmar parceria com Eduardo Campos. "Descarregaram uma metralhadora na Marina. Ela sucumbiu", lamenta, ao explicar a derrota da ex-colega. Por Marina, Simon desistiu de última hora da aposentadoria, anunciada há dois anos, e lançou-se candidato à reeleição, substituindo o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), conduzido a vice após a morte de Eduardo. Assim como a ex-senadora, acabou em terceiro lugar. Mas passou o bastão ao filho Tiago Simon, de 44 anos, eleito pela primeira vez deputado estadual. Discípulo da Ordem Terceira de São Francisco desde 2000, Simon afirma que, aposentado, correrá o país pregando um a nova forma de fazer política. "Os que querem o mal ou usufruir vantagem terminam se unindo, se dando as mãos. E os outros, os chamados autênticos, que querem o bem ficam isolados. Temos de mudar isso." Simon deixará o Senado em 31 de janeiro de 2015, dia em que completará 85 anos. Revista Congresso em Foco – Este é o pior Congresso do qual o senhor participou? Pedro Simon – Não falo em pior nem em melhor. É a circunstância que estamos vivendo. Não tem mais o que fazer. Qual é o próximo escândalo depois da Petrobras? Como é que vamos começar no ano que vem? Na base do "é dando que se recebe"? É preciso que o Palácio do Planalto reúna o Congresso para governar com seriedade de um modo muito especial. Todos dizem que querem uma reforma política, uma reforma partidária, uma reforma na economia, um novo pacto social. Então vamos fazer isso. Precisamos de um governo de entendimento geral, tal como houve no Itamar. O PT, o PSDB e o PMDB têm de se reorganizar para fazermos uma eleição pra valer daqui a quatro anos. Não digo que o próximo deva ser um governo de transição, mas que tem de fazer a transição. É uma oportunidade que temos. Depois das manifestações do ano passado, acreditava-se em uma grande renovação no Congresso, que não houve. Por quê? Porque o momento não permite. O escândalo do mensalão foi grande demais. A mocidade foi às ruas espontaneamente, sem partidos, exigindo mudanças, um Brasil novo. O governo errou ao tratar os condenados no mensalão como heróis. A classe política caiu em descrédito. CPIs, como a do Cachoeira, só jogaram a sujeira pra debaixo do tapete. O governo e os parlamentares ficaram muito desgastados. Muitas pessoas não aceitaram em hipótese alguma serem candidatas. Conheço pessoas sérias, advogados, médicos, empresários, professores, que não aceitaram concorrer. Além disso, o candidato à reeleição tem muita vantagem. As emendas parlamentares, que somam R$ 15 milhões para cada congressista, muitas vezes decidem uma eleição. Como resolver esse quadro? Temos o pior sistema de eleição para deputado do mundo. O normal é eleição com voto distrital, que não tem nada a ver com isso e reduz o gasto. É como uma eleição para prefeito. No município, em geral, ganha o candidato que tem mais credibilidade e respeito, não o que tem mais dinheiro. Hoje um deputado tem de trabalhar nos 500 municípios do Rio Grande do Sul para ganhar voto. Não trabalha em nenhum. Se botássemos o voto distrital, na segunda eleição, este Congresso seria uma maravilha. O candidato trabalharia para o seu recanto. Em relação ao novo Congresso, do qual o senhor não participará, que avaliação o senhor faz? Serão 28 partidos na Câmara e 17 ou 18 no Senado. Uma matéria de maior importância vai ter 28 comunicações de líder. É uma piada. Não existe. Como vamos reunir uma bancada de 40 caras para tomar uma decisão no Congresso? Tem de sair logo essa reforma partidária. Se não a fizerem, será impossível a convivência. O que o senhor fará fora do Congresso? É o fim da política na sua vida? Pretendo fazer o que o Teotônio Vilela fez: percorrer o Brasil. Recebo um número muito grande de convites, principalmente de estudantes e entidades de classe, para fazer palestras. Mas não tinha tempo. Agora vou fazer isso. Temos que estimular políticos, professores e intelectuais a criarem um movimento em favor do Brasil.